Cirurgia robótica de prótese: o que o robô faz e o que ele não faz
A pergunta chega quase sempre do mesmo jeito. O paciente senta, ouve que vai precisar de uma prótese de joelho ou de quadril, e a primeira coisa que quer saber é se vai ser “com o robô”. Depois vem a segunda pergunta, mais tímida: “mas quem opera é o senhor ou é a máquina?”.
Quem opera sou eu. Vale começar por aí.
O robô não decide nada sozinho e não tem autonomia nenhuma. O que ele faz é outra coisa, e é bem útil. Antes da cirurgia, fazemos uma tomografia do seu joelho ou do seu quadril e montamos um modelo em três dimensões da sua articulação, com as suas medidas. Nesse modelo eu planejo onde a prótese vai ficar, em que ângulo, com que espessura de corte. No dia da cirurgia, o braço robótico segura o instrumento junto comigo e simplesmente não deixa que o corte saia do que foi planejado. É um limitador de erro, não um substituto.
Isso mudou bastante nos últimos anos no Brasil. Até o fim de 2025 já havia mais de 110 desses equipamentos instalados em mais de 50 hospitais brasileiros, segundo levantamento da Sociedade Brasileira do Quadril. Há cinco anos essa conversa era rara no consultório. Hoje é semanal.
O que os estudos mostram, sem exagero
Aqui preciso ser honesto, porque existe muito material promocional circulando e pouca gente explica o outro lado.
O que está bem demonstrado: a prótese fica melhor posicionada. No quadril, o componente que vai na bacia fica mais próximo do ângulo ideal, o que na teoria reduz risco de a prótese deslocar. No joelho, os erros de corte caem bastante. E há dados brasileiros mostrando internação mais curta em pacientes operados com auxílio do robô.
O que ainda não está demonstrado: que você vai ter menos complicações, menos sangramento ou um resultado melhor daqui a quinze anos. Os estudos de longo prazo ainda não existem, porque a tecnologia é recente. Quem promete isso está indo além do que a evidência permite.
E tem a parte que ninguém gosta de discutir: custo. Numa pesquisa recente com 218 pacientes brasileiros com indicação de prótese de joelho, menos da metade se disse disposta a arcar com a diferença de valor. Cobertura por convênio varia caso a caso e raramente é automática.
Então vale a pena?
Na minha prática, depende de três coisas: da sua anatomia, do seu plano de saúde e de quem vai operar.
Anatomia porque há situações em que o ganho de precisão importa mais. Joelho muito deformado, sequela de fratura antiga, osso fora do padrão. Nesses casos o planejamento em 3D me poupa surpresa dentro da sala.
Plano de saúde porque não faz sentido você se endividar por um ganho que, na média, é de precisão e não de resultado final comprovado.
E cirurgião porque essa é a parte que as pessoas invertem. Um cirurgião experiente operando pela técnica convencional entrega um resultado melhor do que um cirurgião pouco treinado com o robô mais caro do mercado. A tecnologia melhora um bom cirurgião. Ela não conserta um cirurgião ruim.
Se você está pesquisando sobre isso, pergunte ao seu médico quantas cirurgias ele já fez com a plataforma que ele usa, e quantas fez sem. A resposta diz mais sobre o seu resultado do que a marca do equipamento.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui a consulta com um médico. Indicações, riscos e alternativas de tratamento variam de pessoa para pessoa e só podem ser definidos em avaliação individual.