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Por que uma em cada cinco pessoas nunca sente a prótese de joelho como “seu joelho”

A prótese total de joelho é uma das cirurgias mais bem resolvidas da ortopedia. A articulação dura décadas, a dor da artrose vai embora, a pessoa volta a andar. Se o critério for esse, a taxa de sucesso é altíssima.

Mesmo assim, mais ou menos 20% dos pacientes terminam insatisfeitos. E o detalhe que sempre me incomodou nesse número é que a radiografia costuma estar perfeita. A prótese está no lugar, o osso está bem integrado, a medida está impecável. Só que o paciente diz: “doutor, funciona, mas não parece o meu joelho”.

Durante muito tempo tratamos isso como queixa subjetiva. Hoje eu entendo que era um problema de método.

O padrão que servia para todo mundo

A técnica clássica de prótese de joelho, chamada de alinhamento mecânico, parte de um princípio simples: deixar a perna perfeitamente reta, com a prótese posicionada em ângulos padronizados. Isso é ótimo para a durabilidade do implante. Foi o que permitiu que essas próteses passassem a durar vinte, vinte e cinco anos.

O problema é que quase ninguém nasce com a perna perfeitamente reta.

A maioria das pessoas tem um desvio leve, para dentro ou para fora, que está ali desde a adolescência. Os músculos, os ligamentos e o jeito de andar se organizaram em volta desse desvio a vida inteira. Quando a gente corrige tudo para o padrão ideal de livro, o joelho fica mecanicamente correto e biologicamente estranho. O paciente anda, mas anda diferente. E percebe.

O que mudou

A abordagem que vem ganhando espaço se chama alinhamento cinemático. A ideia é respeitar a anatomia que você tinha antes da artrose chegar, em vez de convertê-la para um padrão universal. Reconstruir o seu joelho, não o joelho médio.

Quem opera assim relata recuperação mais rápida e mais pacientes descrevendo aquela sensação de “joelho esquecido”, que é o nosso melhor resultado possível: a pessoa passa o dia sem lembrar que tem uma prótese.

Preciso colocar um freio aqui, porque é uma área em movimento. As comparações de longo prazo entre as duas técnicas ainda estão sendo feitas, e há debate legítimo entre cirurgiões sobre até onde vale respeitar um desvio grande sem comprometer a vida útil do implante. Não é uma disputa entre o certo e o errado. É uma escolha que depende do seu caso, do tamanho do seu desvio e do que você espera da perna depois.

Por que isso vai importar cada vez mais

A artrose de joelho já é uma das maiores causas de incapacidade no mundo, e as projeções de demanda por cirurgia para as próximas décadas são de um crescimento que beira o absurdo, na casa dos 800% até 2050 em alguns modelos. Envelhecimento populacional, sobrepeso e gente querendo continuar ativa depois dos 60.

Com esse volume, resolver a dor deixa de ser suficiente. Se um quinto das pessoas operadas fica insatisfeita, estamos falando de milhões de pessoas com um joelho que funciona e que elas não reconhecem como delas.

Na consulta, quando chegamos na decisão de operar, eu gasto um tempo perguntando como era o seu joelho antes de doer. Se você era de perna levemente arqueada, se sempre desgastou o sapato mais de um lado, se alguém na família tem o mesmo formato de perna. Não é conversa de cortesia. É informação que entra no planejamento.

Este texto tem finalidade informativa e não substitui a consulta com um médico. Indicações, riscos e alternativas de tratamento variam de pessoa para pessoa e só podem ser definidos em avaliação individual.

Dr. João Marcelo Petini

Dr. João Marcelo Petini

Ortopedista e traumatologista em Jundiaí, com mais de 20 anos em cirurgia de quadril e joelho. Membro da SBOT, SBQ, AAOS, AANA e ISHA.

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