Coloquei prótese aos 54 anos: quando operar cedo faz sentido e quando não faz
Quando comecei a operar, prótese era assunto de gente com mais de 70 anos. Hoje metade dos pacientes de muitos serviços tem menos de 65. E não é impressão: nos Estados Unidos, onde os dados são mais bem acompanhados, as cirurgias de prótese na faixa dos 45 aos 64 anos cresceram 211% no quadril e 240% no joelho entre 2000 e 2017.
Duas coisas explicam isso, e elas puxam em direções diferentes.
A primeira é o peso. A obesidade avançou muito nas últimas duas décadas, e a articulação sente isso de forma desproporcional. Cada quilo a mais no corpo representa em torno de quatro quilos de carga extra no joelho a cada passo. Uma pessoa com vinte quilos acima do peso está caminhando com quase oitenta quilos adicionais em cima da cartilagem, todos os dias. A artrose chega mais cedo.
A segunda é mais alegre: as pessoas pararam de aceitar envelhecer paradas. Paciente de 55 anos hoje joga beach tennis, corre, pedala, viaja. Antigamente essa pessoa aceitava reduzir a vida e conviver com a dor. Hoje ela entra no consultório e diz que não quer passar os próximos trinta anos assim. É um pedido legítimo.
A conta que eu faço com o paciente
Prótese de joelho e de quadril duram muito mais do que duravam. Os materiais melhoraram bastante, principalmente os polietilenos, e é razoável hoje falar em vinte anos ou mais de vida útil em boa parte dos casos.
Mas vinte anos a partir dos 54 te leva aos 74. E aí talvez precise de uma segunda cirurgia.
A cirurgia de revisão, que é a troca da prótese, é sempre mais difícil do que a primeira. Tem menos osso para trabalhar, mais tecido cicatricial, mais risco. Não é uma catástrofe, faço várias por ano e a maioria vai bem, mas é uma cirurgia de outra categoria. Quando você opera cedo, essa possibilidade entra na conta.
Tem ainda um detalhe que os pacientes mais jovens costumam subestimar. Eles assumem que vão se recuperar rápido porque são jovens e ativos. Muitas vezes se recuperam mesmo. Mas são também os que mais forçam antes da hora, os que voltam a correr no terceiro mês porque estão se sentindo bem, e os que exigem mais da prótese ao longo de trinta anos de uso. Isso desgasta.
O que eu peço antes de marcar
Não sou contra operar aos 50. Sou contra operar aos 50 sem ter tentado o resto.
Perda de peso muda o jogo mais do que qualquer paciente acredita antes de tentar. Já vi gente adiar a cirurgia em cinco, seis anos com uma redução de doze quilos e fortalecimento sério de quadríceps. Não funciona em todo mundo, e não funciona quando a cartilagem já foi embora por completo, mas funciona em muito mais gente do que se imagina.
Fortalecimento é o segundo ponto, e o mais negligenciado. Músculo forte em volta da articulação absorve carga que a cartilagem não precisa absorver. Fisioterapia bem feita, com progressão de carga, não aquela sessão de vinte minutos de aparelho.
Infiltrações e medicação ajudam a atravessar períodos ruins e a ganhar tempo, mas são ponte, não destino.
Agora, o outro erro existe e é igualmente comum: adiar demais. Paciente que passa três anos mancando perde massa muscular, ganha peso porque parou de se mexer, desenvolve dor na coluna e no outro joelho por compensação, e chega para operar em condição muito pior. A recuperação desse paciente é mais lenta e o resultado final é pior.
O ponto certo não é uma idade. É o momento em que a dor limita o que você faz da sua vida e as alternativas já foram honestamente tentadas. Isso pode acontecer aos 52 ou aos 78.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui a consulta com um médico. Indicações, riscos e alternativas de tratamento variam de pessoa para pessoa e só podem ser definidos em avaliação individual.