O que mudou na cirurgia do atleta: ligamento do joelho e impacto no quadril
Duas conversas se repetem no consultório com quem joga alguma coisa a sério, seja profissional ou não.
A primeira é do jogador que rompeu o ligamento cruzado anterior, operou, voltou a jogar, e rompeu de novo. Normalmente ele chega arrasado, achando que fez algo errado na recuperação.
A segunda é do jogador de futebol com dor na virilha há dois anos, que já passou por três médicos, já fez fisioterapia para “pubalgia” e continua sem conseguir chutar direito.
Os dois casos mudaram bastante nos últimos anos.
Ligamento cruzado: parou de ser só o ligamento
A cirurgia de LCA é uma das mais realizadas da ortopedia do esporte, e o resultado dela sempre teve um incômodo: uma parte dos operados continuava com o joelho “frouxo” na rotação, mesmo com o ligamento novo bem posicionado. Em até um quarto dos casos, alguma instabilidade rotacional permanecia. E o joelho instável rompe de novo.
A explicação é que o cruzado anterior não trabalha sozinho. Existe uma estrutura na face lateral do joelho, o complexo anterolateral, que segura a rotação junto com ele. Quando você reconstrói só o cruzado, essa parte lateral fica sem reforço.
Hoje, em pacientes de risco, eu associo um procedimento extra na lateral do joelho, usando uma tira do próprio tecido da coxa. Os números que sustentam isso são bons. Numa das análises comparativas, a falha da cirurgia isolada foi de 7,9% contra 0,8% quando o reforço lateral foi associado. Em outra comparação, 11,1% contra 3,9%. E o mais importante: sem aumento relevante de complicações.
Não indico para todo mundo. Faz sentido principalmente em atleta jovem, esporte com muita mudança brusca de direção (futebol, handebol, basquete), pessoa com frouxidão articular, e em quem já rompeu uma vez. Para um adulto de 40 anos que corre em linha reta, o ganho é pequeno e a cirurgia fica maior sem motivo.
Quadril do atleta: aquela dor na virilha que não passa
O impacto femoroacetabular é uma diferença de formato entre a cabeça do fêmur e a bacia que faz os dois baterem um no outro em certos movimentos. Quem agacha muito, gira muito e chuta muito sente. É comum no futebol, e é muito subdiagnosticado.
A dor costuma ser na virilha, piora sentado por muito tempo, e a pessoa vai levada para o caminho da lesão muscular durante anos antes de alguém pedir a imagem certa.
A cirurgia é por vídeo, com incisões pequenas, e consiste em corrigir esse formato e reparar o lábio acetabular, que é uma espécie de anel de vedação da articulação que costuma estar rasgado junto.
Os resultados em jogadores de futebol, reunindo vários estudos, mostram cerca de 91% voltando a jogar. Só que apenas 71% voltam ao mesmo nível competitivo de antes. Essa diferença entre os dois números é a conversa mais importante que eu tenho com um atleta antes de operar, e é a que menos aparece em material de divulgação.
Dois fatores pesam muito no resultado. Idade e estado da cartilagem: quem já tem artrose instalada melhora a dor, mas ganha bem menos função, e tem risco maior de precisar de uma prótese nos anos seguintes. E se é a primeira cirurgia ou não: num estudo com atletas profissionais, o retorno ao esporte foi de 79% nas cirurgias primárias e despencou para 25% nas reoperações. Fazer certo da primeira vez importa demais aqui.
O que os dois casos têm em comum
Em ambos, metade do resultado não está na sala de cirurgia.
O tempo de retorno ao esporte não se conta no calendário, se conta em critérios. Força de quadríceps medida e comparada com a perna boa, testes de salto, controle de aterrissagem. Voltar aos seis meses porque “faz seis meses” é uma das principais causas de nova ruptura. Entre os atletas de quadril que voltaram, a mediana foi de sete meses e meio, com casos indo bem além.
E o outro ponto, menos técnico: chegar cedo. Dor que dura mais de três semanas em quem treina não é desgaste normal. A diferença entre uma cartilagem que dá para preservar e uma que já se foi costuma ser de meses, não de anos.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui a consulta com um médico. Indicações, riscos e alternativas de tratamento variam de pessoa para pessoa e só podem ser definidos em avaliação individual.