Quadril do atleta: a dor na virilha que passa anos sem diagnóstico

É uma conversa que se repete no consultório com quem joga alguma coisa a sério, profissional ou não: dor na virilha há dois anos, três médicos já consultados, fisioterapia feita para “pubalgia”, e a pessoa continua sem conseguir chutar direito.
Na maior parte dessas vezes o problema não está na musculatura. Está no formato do quadril. E é um diagnóstico que costuma demorar bem mais do que deveria.
O que é o impacto femoroacetabular
É uma diferença de formato entre a cabeça do fêmur e a bacia que faz os dois baterem um no outro em certos movimentos. Quem agacha muito, gira muito e chuta muito sente. É comum no futebol, e é muito subdiagnosticado.
A dor costuma ser na virilha, piora depois de ficar muito tempo sentado, e o paciente é levado para o caminho da lesão muscular durante anos antes de alguém pedir a imagem certa.
Como é a cirurgia
É feita por vídeo, com incisões pequenas — artroscopia de quadril. Consiste em corrigir esse formato e reparar o lábio acetabular, uma espécie de anel de vedação da articulação que costuma estar rasgado junto.
Os dois números que eu mostro antes de operar
Os resultados em jogadores de futebol, reunindo vários estudos, mostram cerca de 91% voltando a jogar. Só que apenas 71% voltam ao mesmo nível competitivo de antes.
A diferença entre esses dois números é a conversa mais importante que eu tenho com um atleta antes de operar, e é justamente a que menos aparece em material de divulgação. Voltar a jogar e voltar a jogar como antes não são a mesma coisa.
Dois fatores pesam muito no resultado. Idade e estado da cartilagem: quem já tem artrose instalada melhora a dor, mas ganha bem menos função, e tem risco maior de precisar de uma prótese nos anos seguintes. E se é a primeira cirurgia ou não: num estudo com atletas profissionais, o retorno ao esporte foi de 79% nas cirurgias primárias e despencou para 25% nas reoperações. Fazer certo da primeira vez importa demais aqui.
Metade do resultado não está na sala de cirurgia
O tempo de retorno ao esporte não se conta no calendário, se conta em critérios. Força medida e comparada com o outro lado, testes de salto, controle de aterrissagem. Voltar aos seis meses porque “faz seis meses” é uma das principais causas de recaída. Entre os atletas de quadril que voltaram, a mediana foi de sete meses e meio, com casos indo bem além.
E o outro ponto, menos técnico: chegar cedo. Dor que dura mais de três semanas em quem treina não é desgaste normal. A diferença entre uma cartilagem que dá para preservar e uma que já se foi costuma ser de meses, não de anos.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui a consulta com um médico. Indicações, riscos e alternativas de tratamento variam de pessoa para pessoa e só podem ser definidos em avaliação individual.


